terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Do cancelamento ao silêncio




A frase é escrita e apagada. O comentário fica para depois. O post não sai. Não por falta de opinião, mas por excesso de cautela. Antes de falar, calcula-se o efeito colateral. O conteúdo nasce já condicionado à reação.
A comunicação pública foi se deslocando para esse lugar de contenção permanente. Falar passou a exigir mais estratégia do que convicção. Não se trata de evitar o conflito, ele sempre existiu, mas de conviver com um ambiente em que o erro deixou de ser parte do processo e passou a funcionar como marca definitiva.
Chama-se isso de cultura do cancelamento, embora o termo simplifique demais o que está em curso. O que se observa é um aprendizado coletivo do silêncio. Uma comunicação treinada para reduzir exposição, diluir posições, escolher palavras inofensivas. Não por prudência, mas por receio.
O efeito é visível. Discursos genéricos, posicionamentos intercambiáveis, notas que poderiam servir a qualquer situação. A linguagem perde espessura. A palavra deixa de organizar o debate e passa a cumprir apenas função defensiva.
Pesquisas recentes indicam um cenário persistente de baixa confiança em governos, empresas e meios de comunicação no Brasil. Quando a credibilidade se fragiliza, toda fala pública passa a ser lida com suspeita. O sentido importa menos do que a intenção atribuída. O risco antecede o conteúdo.
As redes sociais acentuam esse quadro. A dinâmica da exposição contínua, somada à amplificação do julgamento rápido, transforma deslizes em episódios duradouros. O erro não circula para ser compreendido, mas para ser fixado. A retratação raramente encerra o processo; muitas vezes, apenas o prolonga.
A autocensura se instala de forma discreta. Evitam-se temas ambíguos, posições menos consensuais, formulações que exigem contexto. Fica o que é seguro. O previsível. O aceitável. O debate público se estreita.
Esse silêncio não se distribui de maneira uniforme. Em uma sociedade marcada por desigualdades estruturais, o custo do erro varia conforme quem fala. Alguns erram e seguem adiante. Outros erram e desaparecem. Para muitos, calar não é opção estratégica, mas condição imposta.
Não se trata de defender discursos irresponsáveis nem de relativizar danos reais causados por falas violentas ou desinformativas. Trata-se de reconhecer que uma esfera pública organizada pelo medo produz comunicação empobrecida e pensamento raso. Quando toda fala é potencialmente punitiva, a palavra perde função social.
Comunicar sempre implicou risco. O que mudou foi a proporção entre risco e sentido. Quando o risco se torna maior que o que se tem a dizer, a comunicação deixa de cumprir seu papel: sustentar o conflito, organizar o dissenso, permitir que a sociedade se observe com alguma honestidade.
Talvez seja esse o impasse do presente. Fala-se muito, com extrema cautela, e quase sempre para não dizer nada que realmente permaneça.