terça-feira, 13 de janeiro de 2026

A terceirização do pensamento na era da inteligência artificial

 


A expansão da inteligência artificial no cotidiano profissional e cultural tem produzido um debate deslocado. Pergunta-se, com insistência quase ansiosa, se a tecnologia substituirá pessoas, profissões ou capacidades humanas. A questão relevante, porém, está em outro ponto: o que acontece quando o pensamento deixa de ser exercido e passa a ser delegado.

A IA não inaugura a tentação da terceirização intelectual. Sistemas, métodos e fórmulas sempre ofereceram atalhos para evitar o esforço reflexivo. A diferença agora é a sofisticação do intermediário. As respostas são rápidas, bem formuladas e aparentemente seguras. O texto vem pronto, o argumento organizado, a solução plausível. O risco está justamente aí: quando o resultado parece suficiente, o processo deixa de importar.

Nesse cenário, a inteligência artificial passa a operar não como ferramenta, mas como substituto simbólico do pensamento. Perguntar torna-se repetir. Decidir passa a significar escolher entre sugestões. O raciocínio, reduzido a validação. Não se trata de falha técnica, mas de uma mudança de postura diante do conhecimento.

O efeito não é imediato, mas cumulativo. Multiplicam-se textos corretos, decisões eficientes e discursos coerentes, enquanto se reduz o espaço para a dúvida, para o erro produtivo e para o conflito de ideias. A linguagem continua funcionando, mas perde densidade. Produz-se mais conteúdo do que nunca, com menos elaboração intelectual do que se supõe.

No campo profissional, essa lógica já reorganiza critérios de valor. A habilidade de operar sistemas de IA tornou-se requisito básico. Em muitos contextos, ela é confundida com competência analítica. A produtividade acelera, mas o julgamento se fragiliza. A confiança excessiva em sistemas que não respondem pelo que produzem desloca a responsabilidade do sujeito para o processo.

Esse deslocamento afeta diretamente a noção de autoria. Quando o pensamento é terceirizado, a decisão deixa de ser plenamente assumida. O erro se dilui, a escolha se esconde atrás da recomendação algorítmica, a crítica se enfraquece. A tecnologia não decide, mas oferece caminhos prontos demais para quem não deseja decidir.

Não se trata de rejeitar a inteligência artificial nem de minimizar seus ganhos reais. Ferramentas ampliam capacidades, organizam informações e reduzem tarefas repetitivas. O problema surge quando passam a ocupar o lugar do pensamento crítico. Quando são usadas para evitar o tempo da reflexão, a complexidade do juízo e a responsabilidade da autoria.

Há uma dimensão ética nessa escolha. Pensar é assumir risco. É aceitar a possibilidade do erro, da discordância e da incompletude. Delegar o pensamento em troca de segurança e rapidez pode parecer eficiente, mas empobrece o debate público e fragiliza decisões coletivas.

A inteligência artificial não empobrece o pensamento por si só. Ela apenas revela um movimento anterior, a disposição crescente de abrir mão da elaboração intelectual em nome da eficiência. O algoritmo não silencia ninguém. O silêncio nasce quando o sujeito abdica de pensar.

Talvez o desafio em 2026 não seja aprender a usar melhor a IA, mas reafirmar o valor do pensamento humano diante dela. Usá-la como instrumento, não como substituto. Como apoio ao raciocínio, não como autorização para abdicar dele.

Porque, no fim, a tecnologia pode organizar dados, estruturar textos e sugerir caminhos. Mas só o pensamento é capaz de produzir sentido, sustentar escolhas e responder pelas consequências do que se diz e do que se faz.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O tempo circular como resposta ao esgotamento do mundo linear


2026 se anuncia como um ano em que muitas pessoas chegam exaustas à espiritualidade. Não por falta de crença, mas por excesso de ruído. A Wicca, nesse cenário, deixa de ser apenas uma religião alternativa ou um conjunto de rituais sazonais e passa a operar como um gesto de desaceleração radical frente a um mundo que insiste em avançar sem pausa.

A Roda do Ano, com seus oito sabás, oferece uma lógica que confronta diretamente a ansiedade contemporânea. Não há pressa em Ostara, nem acúmulo em Lammas, nem espetáculo em Samhain. Cada celebração propõe um tempo próprio, orgânico, em que nascer, crescer, colher e morrer são movimentos inevitáveis da vida. Em um mundo obcecado por produtividade contínua, a espiritualidade pagã lembra algo incômodo: tudo tem um limite, inclusive a luz.

Em 2026, essa percepção tende a se intensificar. A Wicca exige observação, presença e responsabilidade espiritual. Celebrar Yule é reconhecer que a escuridão também é fértil. Honrar Beltane é entender o desejo como força criadora que precisa de cuidado para não se tornar excesso.

Há, nesse retorno aos ciclos, um deslocamento importante: a espiritualidade deixa de ser performática e volta a ser vivida. Menos discurso, mais prática. Menos estética vazia, mais vínculo com a terra, com o corpo e com o tempo. A Wicca insiste em um calendário próprio, em que o ano é uma espiral de experiências.

Também por isso, 2026 pode marcar um amadurecimento do olhar wiccano. Com menos necessidade de legitimação externa ou menos preocupação em “explicar” a fé. A Roda do Ano se manifesta no frio, na colheita, no fogo, na queda das folhas. Quem acompanha aprende a escutar e quem escuta, inevitavelmente, muda o ritmo.

Num mundo que já deu sinais claros de esgotamento emocional, ambiental e simbólico, a Wicca surge como lembrança ancestral: viver é atravessar ciclos, não vencê-los. Talvez seja essa a lição mais urgente de 2026: aceitar que o tempo não corre para frente o tempo todo. Ele gira. E, ao girar, ensina.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Stranger Things e o cansaço calculado da nostalgia


O fim de Stranger Things, em 2025, não provocou silêncio. Provocou explicações. Muitas. Entrevistas, bastidores, teorias, pedidos de compreensão ao público. Quando os próprios criadores sentem necessidade de continuar falando depois do último episódio, algo do encerramento ficou em aberto, não na narrativa, mas na experiência.

Matt Duffer admitiu, em entrevistas posteriores, certo arrependimento por ter falado demais após o final da série. A declaração não é banal. Revela uma tensão clara: a tentativa de controlar a recepção quando a obra já não se sustenta sozinha. Em vez de deixar o final operar por ambiguidade ou força simbólica, o discurso externo passou a funcionar como correção de rota.

Essa necessidade dialoga com a reação do público. Listas de “perguntas sem resposta” circularam amplamente, apontando lacunas narrativas, decisões apressadas e resoluções pouco desenvolvidas. Se trata de exigir fechamento absoluto, toda obra deixa arestas, reconhecendo que Stranger Things optou por encerrar sua história mais pelo acúmulo de afetos do que pela consistência dramática.

A própria construção do desfecho de Eleven expõe isso. A personagem central da série tornou-se objeto de teorias, especulações e debates intensos sobre morte, sacrifício e sobrevivência simbólica. A quantidade de leituras não indica riqueza interpretativa, mas ambiguidade mal resolvida. Quando o público precisa recorrer a explicações externas para compreender o destino da protagonista, o problema é hesitação narrativa.

Os irmãos Duffer confirmaram decisões curiosas nos bastidores, como pedidos específicos feitos à atriz Millie Bobby Brown para preservar determinada imagem da personagem. O cuidado excessivo com o símbolo revela algo maior: Stranger Things terminou refém da própria mitologia. Não podia romper com o que construiu, tampouco avançar para algo realmente inesperado.

Os números ajudam a entender esse movimento. O trailer do documentário sobre os bastidores da série atingiu milhões de visualizações rapidamente, sinalizando que o interesse do público já não estava apenas na história, mas na explicação da história. O “como foi feito” passou a competir com o “o que foi dito”. A nostalgia, antes motor narrativo, tornou-se produto autônomo.

Esse deslocamento é sintomático. Stranger Things nasceu como homenagem aos anos 1980, mas terminou como memorial de si mesma. A série passou a existir menos como narrativa e mais como evento cultural prolongado, sustentado por entrevistas, teorias e conteúdos paralelos. O passado deixou de ser referência estética e virou zona de conforto.

Não há fracasso nisso. Há cálculo. A série entregou exatamente o que prometeu: reencontro, emoção, fechamento seguro. O risco foi evitado. A ruptura, contornada. O desconforto, domesticado. O problema é que esse modelo, repetido à exaustão, cobra seu preço. O final não incomoda, não provoca, não desorganiza. Apenas satisfaz.

Talvez por isso os próprios criadores tenham sentido a necessidade de explicar demais. Quando uma obra termina com força, o silêncio basta. Quando não, a palavra tenta compensar.

Stranger Things encerrou sua trajetória como começou: olhando para trás. A diferença é que, em 2025, o gesto já não soa como homenagem, mas como limite. A nostalgia funcionou como estratégia revelando sinais claros de esgotamento.

O fim da série confirma que revisitar o passado é mais fácil do que imaginar o próximo passo. E que, em algum momento, toda fórmula bem-sucedida começa a se repetir, até pedir encerramento.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

A morte de um certo ideal de mulher, cinema e celebridade

Brigitte Bardot morreu em dezembro de 2025. O que ela simbolizou, no entanto, havia se encerrado muito antes. Sua morte biográfica apenas confirmou o fim de um mundo que já não encontrava lugar no presente. Bardot permaneceu como imagem enquanto o tempo histórico seguia outro curso.

Entre as décadas de 1950 e 1960, Bardot marcou uma inflexão. Não apenas como estrela de cinema, mas como forma de presença. Representava um imaginário feminino baseado na sensualidade sem culpa declarada, na liberdade sem discurso e no desejo sem mediação intelectual. Em Et Dieu… créa la femme (1956), não há densidade psicológica tradicional. Há corpo. E é esse corpo que reorganiza o olhar, tensiona a moral e desloca a narrativa. O escândalo não estava na fala, mas na exposição.

Essa liberdade tinha limites nítidos. Não se articulava pela palavra nem pela reivindicação, mas pela visibilidade. Era silenciosa e situada: branca, europeia, jovem, magra, moldada para o olhar masculino. A transgressão não era abstrata. Tinha classe, forma e contexto.

No cinema, Bardot ajudou a consolidar um período em que a estrela se sobrepunha à personagem. O nome vinha antes do roteiro. O corpo organizava a cena. Era o tempo dos mitos duráveis, figuras maiores que os próprios filmes, capazes de atravessar décadas sem explicação adicional. Esse cinema também se encerrou, substituído por franquias, narrativas seriadas e sistemas industriais nos quais o ator se tornou peça intercambiável.

A celebridade que Bardot encarnou tampouco resistiu. Pertencia a uma era em que a vida privada ainda conservava zonas de opacidade, em que o escândalo não exigia posicionamento contínuo e em que a coerência moral não era permanentemente fiscalizada. No ecossistema atual, a celebridade opera sob exposição constante. O silêncio, que antes produzia mistério, passou a gerar suspeita.

A própria Bardot contribuiu para a erosão de sua imagem. Ao abandonar o cinema e assumir posições públicas marcadamente controversas, rompeu o pacto simbólico que sustentava o mito. A figura celebrada como libertária mostrou-se incapaz de acompanhar a complexidade do mundo que se transformava. O ícone permaneceu imóvel enquanto o contexto exigia deslocamento.

É nesse ponto que a morte simbólica antecede a morte física. O ideal de feminilidade que Bardot representou — centrado na liberdade corporal dissociada de consciência política — deixou de responder às exigências contemporâneas. O cinema que a elevou perdeu centralidade cultural. A celebridade fundada no distanciamento foi substituída por uma lógica de visibilidade contínua e vigilância permanente.

Ainda assim, Bardot permanece como documento histórico. Não como referência ética ou modelo a ser seguido, mas como vestígio de um tempo específico. Sua trajetória revela que toda ideia de liberdade é situada, que todo mito carrega exclusões e que nenhum símbolo atravessa a história sem fissuras.

A morte de um certo ideal de mulher, de cinema e de celebridade não configura uma perda a ser lamentada, mas um encerramento histórico. Bardot pertenceu a um mundo que acreditava na força absoluta da imagem. O presente exige mais do que presença: exige palavra, responsabilidade e conflito.

Talvez por isso sua morte produza menos comoção do que reflexão. Não por diminuição de importância, mas porque sua imagem já não oferecia respostas ao tempo atual. Alguns mitos não atravessam o futuro. Permanecem, intactos, apenas no passado.

Brigitte Bardot (1934–2025) 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Do cancelamento ao silêncio




A frase é escrita e apagada. O comentário fica para depois. O post não sai. Não por falta de opinião, mas por excesso de cautela. Antes de falar, calcula-se o efeito colateral. O conteúdo nasce já condicionado à reação.
A comunicação pública foi se deslocando para esse lugar de contenção permanente. Falar passou a exigir mais estratégia do que convicção. Não se trata de evitar o conflito, ele sempre existiu, mas de conviver com um ambiente em que o erro deixou de ser parte do processo e passou a funcionar como marca definitiva.
Chama-se isso de cultura do cancelamento, embora o termo simplifique demais o que está em curso. O que se observa é um aprendizado coletivo do silêncio. Uma comunicação treinada para reduzir exposição, diluir posições, escolher palavras inofensivas. Não por prudência, mas por receio.
O efeito é visível. Discursos genéricos, posicionamentos intercambiáveis, notas que poderiam servir a qualquer situação. A linguagem perde espessura. A palavra deixa de organizar o debate e passa a cumprir apenas função defensiva.
Pesquisas recentes indicam um cenário persistente de baixa confiança em governos, empresas e meios de comunicação no Brasil. Quando a credibilidade se fragiliza, toda fala pública passa a ser lida com suspeita. O sentido importa menos do que a intenção atribuída. O risco antecede o conteúdo.
As redes sociais acentuam esse quadro. A dinâmica da exposição contínua, somada à amplificação do julgamento rápido, transforma deslizes em episódios duradouros. O erro não circula para ser compreendido, mas para ser fixado. A retratação raramente encerra o processo; muitas vezes, apenas o prolonga.
A autocensura se instala de forma discreta. Evitam-se temas ambíguos, posições menos consensuais, formulações que exigem contexto. Fica o que é seguro. O previsível. O aceitável. O debate público se estreita.
Esse silêncio não se distribui de maneira uniforme. Em uma sociedade marcada por desigualdades estruturais, o custo do erro varia conforme quem fala. Alguns erram e seguem adiante. Outros erram e desaparecem. Para muitos, calar não é opção estratégica, mas condição imposta.
Não se trata de defender discursos irresponsáveis nem de relativizar danos reais causados por falas violentas ou desinformativas. Trata-se de reconhecer que uma esfera pública organizada pelo medo produz comunicação empobrecida e pensamento raso. Quando toda fala é potencialmente punitiva, a palavra perde função social.
Comunicar sempre implicou risco. O que mudou foi a proporção entre risco e sentido. Quando o risco se torna maior que o que se tem a dizer, a comunicação deixa de cumprir seu papel: sustentar o conflito, organizar o dissenso, permitir que a sociedade se observe com alguma honestidade.
Talvez seja esse o impasse do presente. Fala-se muito, com extrema cautela, e quase sempre para não dizer nada que realmente permaneça.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Chinelos, cortinas de fumaça e a política em modo “clássico de domingo”


A propaganda de Ano-Novo da Havaianas, “não comece 2026 com o pé direito… comece com os dois pés”, é, no limite, um exercício clássico de criatividade publicitária. Parte de um clichê popular, desloca seu sentido e o devolve ao público em forma de convite à ação, à autonomia e ao movimento. O texto fala de corpo, de atitude, de presença inteira no mundo: “dois pés na porta, na estrada, na jaca”. Não há ali pedido de voto, menção ideológica explícita, defesa programática ou ataque a qualquer grupo político.

Ainda assim, em poucos dias, o comercial foi convertido em escândalo político. O que era uma metáfora virou “mensagem subliminar”; o que era linguagem simbólica virou “posição ideológica”. O boicote, impulsionado por figuras da direita e amplificado nas redes, rapidamente contaminou o noticiário econômico, produzindo ruído suficiente para transformar um chinelo em pauta nacional.

Quando um comercial de sandálias vira “guerra cultural”, o problema não está na publicidade. Está na política, mais precisamente, na forma como ela vem sendo praticada: empobrecida de conteúdo, dependente de conflito permanente e viciada em atenção.

A engrenagem: transformar metáfora em ofensa, e ofensa em campanha

Nada disso acontece por acaso. Existe um método, já testado, repetido e comprovadamente eficaz, no marketing político digital contemporâneo. Ele opera em etapas bastante claras.

Primeiro, recorta-se um trecho que permita uma leitura literalista, simplificada e emocionalmente explosiva. No caso, a expressão “pé direito”, arrancada do campo simbólico e jogada no terreno da disputa ideológica.

Em seguida, atribui-se intenção ao emissor. Não importa o que o texto diz, mas o que se afirma que ele “quis dizer”. A campanha passa a ser rotulada como “posicionamento político”, mesmo sem qualquer evidência concreta no conteúdo publicitário.

O terceiro passo é a convocação da base. Não se trata, de fato, de prejudicar economicamente a marca, mas de criar um ritual público de pertencimento: quem boicota prova lealdade; quem não boicota é suspeito. O consumo vira identidade política.

Por fim, o conflito é amplificado com linguagem de torcida organizada. Compra vira traição. Crítica vira “lacração”. O debate desaparece, substituído por palavras de ordem fáceis de replicar, compartilhar e performar.

Nesse contexto, a ironia publicada pelo deputado Nikolas Ferreira, “Havaianas, nem todo mundo agora vai usar”, funciona menos como opinião individual e mais como sinal de largada. É curta, memeável, emocionalmente carregada e orienta o comportamento do grupo. Não busca convencer quem discorda; busca manter coesa a própria torcida.

E aqui está o ponto central: a política tratada como futebol é uma tecnologia de engajamento. Ela não depende de verdade factual, coerência discursiva ou profundidade argumentativa. Ela depende apenas de utilidade emocional. Se gera raiva, identidade e mobilização, cumpre sua função.

O truque da agenda: barulho em cima, votação lá embaixo

A pergunta inevitável é: por que investir tanta energia em um chinelo?

Porque polarização é uma das formas mais eficientes de deslocar atenção pública. Não é necessário afirmar, nem seria intelectualmente honesto, que houve um plano deliberado para usar a Havaianas como distração de uma pauta específica. Mas é impossível ignorar o padrão estrutural: enquanto controvérsias simbólicas inflamam redes sociais, temas complexos seguem tramitando com pouco escrutínio público.

No mesmo período em que a polêmica ganhava tração, o Congresso lidava com votações orçamentárias, créditos adicionais, negociações políticas e decisões de impacto direto sobre a vida econômica do país. Assuntos que exigem leitura, contexto, paciência e, sobretudo, disposição para entender processos.

A “cortina de fumaça”, portanto, não precisa ser conspiratória. Ela pode ser funcional. É muito mais simples incendiar a opinião pública com uma guerra identitária do que explicar orçamento, comissão, emenda parlamentar ou impacto fiscal. O escândalo simbólico age como uma pauta-parasita: suga atenção, ocupa o espaço do debate e empurra temas essenciais para o rodapé da agenda pública.

O boicote como performance (e a realidade como anticlímax)

A realidade, no entanto, costuma ser menos épica do que o discurso. Os dados de consumo indicaram lojas cheias, continuidade nas vendas e ausência de um efeito concreto e duradouro do boicote. O mercado financeiro reagiu com volatilidade pontual, típica de ruídos midiáticos, mas o comportamento do consumidor revelou algo importante: a maioria não participa dessa encenação.

Isso reforça a tese central: o boicote funcionou muito mais como performance política do que como ação econômica eficaz. Ele serve para manter a base mobilizada, indignada e permanentemente em alerta. Não necessariamente para atingir o alvo declarado.

Quem ganha quando a política vira torcida?

Ganha quem controla o roteiro do conflito. Porque torcida não pede prova, pede pertencimento. E pertencimento se constrói com inimigos simples, facilmente identificáveis. Hoje é uma marca de chinelos. Amanhã, um artista, um professor, uma palavra, um gesto.

O método se repete porque funciona. Ele reduz a política a reflexo, elimina a complexidade e transforma cidadãos em espectadores passionais de um jogo que nunca termina.

A maior ironia de toda essa história é que a campanha falava justamente de estar inteiro: “dois pés”, corpo presente, ação consciente. A reação fabricada produziu o oposto: um país andando manco, com um pé preso na indignação performática e o outro escorregando para longe do que realmente importa.

Se a democracia fosse um slogan de Ano-Novo, talvez fosse este: antes de brigar por chinelo, confira a pauta. Porque enquanto a arquibancada grita, alguém segue decidindo o jogo, em silêncio. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Como manter a voz humana no texto gerado por IA

 


O texto publicitário e o roteiro audiovisual estão atravessando um dos momentos mais disruptivos desde a invenção da imprensa. A inteligência artificial generativa, presente em plataformas como ChatGPT, Gemini e Claude, já é capaz de redigir peças completas, adaptar linguagem a diferentes públicos e otimizar resultados em segundos. De acordo com o Relatório “State of AI in Marketing 2025” da HubSpot Research, 74% das agências de comunicação utilizam ferramentas de IA para criar conteúdo textual ou roteirizar vídeos. A velocidade e a precisão dessas tecnologias são inegáveis, mas o risco é claro: quanto mais automatizada a escrita, maior o perigo de perder aquilo que sempre diferenciou o humano da máquina, o tom, o ritmo e a emoção.

O redator e o roteirista foram, historicamente, os intérpretes da sensibilidade coletiva. São eles que captam o que uma geração sente e transformam isso em linguagem. Quando uma IA escreve, ela não “sente”: ela processa padrões linguísticos. Seu repertório vem de bilhões de textos, mas não de vivências. O resultado é coerente, mas previsível; informativo, mas raramente memorável. A pesquisa Creativity in the Age of AI, realizada pela Adobe (2024), mostra que 61% dos consumidores percebem quando um texto publicitário é “frio” ou “genérico”. Isso revela algo fundamental: mesmo em um cenário de automação, o público ainda reconhece, e valoriza, a autenticidade da voz humana.

Isso não significa que a IA seja inimiga da escrita criativa. Ela é, na verdade, um espelho ampliado: reflete nossa linguagem e devolve suas possibilidades em velocidade de código. O problema é que, sem direção humana, esse espelho deforma. Um roteirista que delega completamente a criação à máquina perde o domínio do tom narrativo; um redator que apenas edita textos automatizados transforma-se em revisor de algoritmos. O verdadeiro diferencial estará em quem souber escrever com a IA, e não por meio dela, quem a utiliza como parceira de brainstorming, mas mantém o pulso narrativo no controle.

Nas agências, essa transição já começa a se desenhar. O cargo de “AI Copy Supervisor” surge em grandes grupos publicitários, unindo competências de escrita, análise e programação. O profissional precisa dominar linguagem, contexto cultural e ética comunicacional. Ele não é substituído pela máquina; torna-se o mediador entre a criação humana e o cálculo algorítmico. Como aponta o estudo da Forbes Communications Council (2025), empresas que equilibram automação e direção humana produzem conteúdos com até 35% mais engajamento e retenção de público.

A questão ética também é inescapável. Se a IA aprende a escrever observando o que já foi escrito, há um risco constante de plágio involuntário, apropriação de estilo e replicação de vieses. A Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO, 2024) reforça que textos gerados exclusivamente por IA não podem ser protegidos por direito autoral, justamente porque não possuem intenção criadora. Isso recoloca o roteirista e o redator no centro da responsabilidade autoral: são eles que decidem o que deve ser dito e o que deve ser silenciado, quais discursos são éticos e quais perpetuam desigualdades.

A educação superior tem um papel crucial nesse contexto. As faculdades presenciais de Publicidade e Propaganda precisam formar profissionais que unam repertório cultural e competência tecnológica. Aprender a usar IA sem compreender a história, a sociologia e a estética da comunicação é criar bons digitadores de prompts, mas não autores. O ensino presencial, com suas trocas, debates e vivências criativas, continua sendo o espaço mais fértil para o desenvolvimento da voz narrativa, algo que não se programa, apenas se aprende na convivência e na escuta.

No fim das contas, a automação não extinguirá o redator nem o roteirista. Ela apenas exigirá que sejam mais conscientes de sua própria voz. O futuro da escrita publicitária dependerá de profissionais que saibam usar a IA como ferramenta de amplificação, e não de substituição. O texto continuará sendo o território da emoção, e a emoção, até onde sabemos, ainda é uma exclusividade humana.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

A autoria criativa na era das máquinas

 


A revolução trazida pela inteligência artificial não se limita à automação de tarefas; ela toca o núcleo simbólico da publicidade: a criação. Campanhas, slogans e peças que antes dependiam exclusivamente da sensibilidade humana hoje podem ser concebidas por ferramentas generativas capazes de escrever textos, sugerir paletas de cor, criar imagens ou planejar anúncios. A dúvida inevitável surge: quem é o autor quando a IA participa da criação publicitária?

Durante décadas, a autoria publicitária foi entendida como trabalho coletivo e intelectual, mas sempre humano. Diretores de arte, redatores e estrategistas assinavam criações que uniam emoção, técnica e contexto cultural. Com o avanço da IA, o processo criativo passa a ser mediado por sistemas que aprendem padrões estéticos e semânticos a partir de milhões de exemplos. Segundo o Relatório Global de Inteligência Artificial 2025 da Deloitte Insights, cerca de 64% das agências já utilizam alguma forma de IA em suas rotinas criativas, especialmente para roteiros e campanhas digitais. O software deixou de ser apenas ferramenta e tornou-se coautor invisível.

No entanto, a IA não cria a partir do vazio. Ela reorganiza dados, combina linguagens e responde a comandos. A originalidade ainda depende da intenção humana, do publicitário que formula o briefing, escreve o prompt e interpreta o resultado. Sem esse direcionamento, a IA apenas reproduz o senso comum presente em seu treinamento. A Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO, 2024) reforça que obras geradas unicamente por máquinas não podem ser registradas como criações originais, pois carecem de elemento essencial: a intenção autoral. Na prática, isso significa que, mesmo quando a máquina participa, a autoria ética e legal ainda pertence ao humano que a orienta.

O problema é que, na cultura contemporânea da pressa e da produtividade, esse limite tende a se embaralhar. Há quem defenda que se a máquina escreve um texto publicitário inteiro, com base em prompts genéricos, ela seria uma espécie de “autora algorítmica”. Outros argumentam que o humano continua sendo o criador, já que decide o contexto e o propósito da mensagem. Essa tensão redefine o conceito de autoria, deslocando-o da figura do “gênio criador” para a de curador cognitivo, aquele que combina inteligência humana e artificial de modo consciente e responsável.

Na prática publicitária, esse deslocamento já é perceptível. O publicitário do século XXI não apenas cria, mas programa, conduz e interpreta sistemas de IA. Ele deve entender linguagem de máquina, semântica de dados e implicações éticas da automação. A IA amplia a potência da criação, mas também desafia os limites da autoria e da propriedade intelectual. Em um ambiente em que campanhas podem ser geradas em segundos, o diferencial não será mais a velocidade, e sim a intenção estética e narrativa que o humano imprime sobre o algoritmo.

Esse novo paradigma também exige que as faculdades presenciais de Publicidade e Propaganda se reposicionem. Não basta ensinar softwares; é necessário formar pensadores capazes de compreender as implicações culturais e filosóficas da IA. Discutir autoria na era digital significa refletir sobre responsabilidade, ética e autenticidade — temas que só o ambiente acadêmico, com sua densidade crítica e interdisciplinar, consegue oferecer. A convivência entre teoria e prática, laboratório e debate, é o que permite ao estudante entender que a tecnologia é meio, não fim.

Em síntese, a IA não anula o autor, ela o desafia. A autoria publicitária do futuro será híbrida, compartilhada entre humano e máquina, mas ainda orientada pela visão humana sobre o mundo. O papel do publicitário, portanto, é permanecer como diretor criativo da inteligência artificial, guiando a tecnologia com sensibilidade, ética e propósito. Em um cenário de algoritmos cada vez mais eficientes, ser autor continuará sendo, acima de tudo, um ato de consciência.


sábado, 29 de novembro de 2025

Nova fronteira da criatividade publicitária

 


O mercado publicitário vive um de seus períodos mais desafiadores desde a popularização da internet. As ferramentas de inteligência artificial generativa, como ChatGPT, DALL·E, Gemini e Midjourney, passaram a ocupar o centro dos processos criativos. Campanhas, roteiros e imagens podem ser gerados em minutos, mas o resultado só é verdadeiramente eficaz quando há por trás um profissional capaz de formular comandos claros, estratégicos e contextualizados. Essa habilidade é conhecida como engenharia de prompts, e está transformando o modo como as agências e universidades formam seus publicitários.

A engenharia de prompts consiste em estruturar instruções para sistemas de IA, garantindo que as respostas sejam relevantes, criativas e adequadas aos objetivos de comunicação. Em outras palavras, é a tradução do pensamento publicitário para a linguagem da máquina. Segundo levantamento global da McKinsey & Company (2024), empresas que adotaram práticas sistemáticas de prompt engineering obtiveram resultados significativamente superiores em produtividade e personalização de conteúdo. O raciocínio é simples: quanto mais inteligente for o comando, mais inteligente será a resposta.

Na publicidade, essa competência tem valor estratégico. Modelos de IA já auxiliam na elaboração de headlines, segmentação de público, análise de sentimentos e simulações de campanha. No entanto, sem um profissional que saiba conduzir o diálogo com a tecnologia, o processo tende à superficialidade. O domínio da engenharia de prompts permite acelerar a produção sem abrir mão da consistência criativa, uma combinação que vem sendo considerada indispensável em agências brasileiras segundo o Relatório Global de Marketing Digital 2025 da Forbes Communications Council.

Mais do que otimizar o tempo, o domínio dessa linguagem híbrida garante personalização e relevância narrativa. O publicitário que entende como estruturar um prompt eficiente pode adaptar campanhas a diferentes perfis de audiência, explorar múltiplas vozes e gerar alternativas de layout, texto e imagem com coerência estética e discursiva. Esse processo eleva o papel humano de executor a curador, deslocando o foco da produção mecânica para a orquestração criativa.

Entretanto, é preciso cautela. A popularização da IA também ampliou os riscos de homogeneização e de perda de autenticidade comunicacional. O estudo da Digital Agency Network (2024) aponta que prompts genéricos tendem a reproduzir padrões visuais e textuais idênticos, o que pode comprometer a identidade de marca. Da mesma forma, o Relatório ABES de Tecnologia e Inovação (2025) alerta que o uso indiscriminado de modelos treinados em bases de dados estrangeiras pode gerar ruídos culturais e reforçar vieses de representação. Por isso, dominar engenharia de prompts não é apenas uma questão técnica, é também uma questão ética e cultural.

Nesse contexto, as faculdades presenciais de Publicidade e Propaganda possuem papel fundamental. São elas que proporcionam experiências práticas em laboratórios de criação, debates críticos em sala de aula e o desenvolvimento de pensamento interdisciplinar entre tecnologia, linguagem e sociedade. A vivência presencial permite que os estudantes aprendam a formular prompts com base em briefings reais, compreendendo o impacto estético, psicológico e social das decisões criativas mediadas por IA. Essa abordagem forma profissionais mais preparados para o mercado contemporâneo e menos suscetíveis à dependência cega das ferramentas.

O mercado, por sua vez, já começa a reconhecer essa diferença. De acordo com o Levantamento Global de Tendências em Marketing 2025, realizado pela Deloitte Digital, cresce a demanda por especialistas capazes de traduzir objetivos de marca em comandos técnicos para IAs generativas. As funções de “AI Content Designer” e “Prompt Engineer for Marketing” estão entre as que mais crescem nos Estados Unidos e na Europa, e começam a surgir em agências brasileiras de médio e grande porte. A tendência é que, em poucos anos, o domínio de engenharia de prompts se torne um pré-requisito profissional, assim como o domínio de softwares gráficos foi no início dos anos 2000.

Portanto, a engenharia de prompts representa não apenas uma habilidade técnica, mas uma mudança de paradigma. Ela exige do publicitário domínio de linguagem, cultura, análise e sensibilidade estética, atributos que nenhuma máquina reproduz com autenticidade. Em um cenário saturado de automação, saber o que perguntar tornou-se tão importante quanto saber o que criar. É isso que definirá o publicitário do futuro: aquele que transforma a IA em parceira criativa, não em substituta.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Inteligência artificial na publicidade brasileira

 


A publicidade brasileira entrou, definitivamente, na fase em que “usar IA” deixou de ser diferencial e passou a ser obrigação operacional. Dados recentes da Associação Brasileira das Empresas de Software mostram que o Brasil lidera os investimentos em TI e que a inteligência artificial é uma das frentes que mais puxam o crescimento do setor em 2024 e 2025, com projeção de alta de 9,5% e gasto de US$ 58,6 bilhões em 2024 (ABES, 2025). Isso significa que o ambiente empresarial, inclusive o publicitário, já tem infraestrutura e orçamento para rodar campanhas, testar criativos, segmentar públicos e analisar comportamento em tempo real com apoio de algoritmos.

O ponto é que a publicidade não lida apenas com eficiência: ela lida com sentido. E aí a IA começa a tensionar o campo. A pesquisa “O futuro das agências – 2ª ed.”, da KPMG, feita com agências brasileiras, mostra que as ferramentas mais adotadas são as de mensuração de resultados (35%) e inteligência de dados (33%), mantendo a IA no centro da relação com o cliente e da prova de performance (KPMG, 2024). Isso é ótimo para quem precisa justificar fee e mídia, mas pode levar as equipes a produzirem comunicação cada vez mais guiada pelo que o algoritmo “pede”, e nem sempre pelo que a marca deveria dizer. Quando toda campanha nasce de dashboards, corre-se o risco de cair naquilo que chamo de criatividade de repetição: formatos que funcionam, mas não inovam.

Ao mesmo tempo, estudos de ética em IA aplicados ao marketing no Brasil têm alertado para algo que o mercado costuma empurrar para depois: IA não é neutra. O trabalho de Panicachi e Cohen sobre limites éticos da IA em marketing mostra que a tecnologia amplia poder de segmentação, mas também amplia assimetrias de informação, podendo expor públicos vulneráveis a anúncios mais agressivos (PANICACHI; COHEN, 2024). O NetLab/UFRJ vem documentando, desde 2024, o uso de anúncios com IA e deepfakes de políticos e celebridades em golpes digitais, o que deixa claro que o problema já chegou à publicidade, não está na ficção (NETLAB/UFRJ, 2024; 2025). Se a IA é capaz de gerar anúncios persuasivos em segundos, ela também é capaz de espalhar desinformação publicitária com a mesma velocidade, e isso volta como risco reputacional para marcas, agências e plataformas.

Por isso, quando discutimos IA em publicidade e propaganda, não basta falar de produtividade. É preciso falar de governança de criação. Quem assina o anúncio gerado por IA? Quem responde se ele usar imagem de pessoa pública sem consentimento? Quem garante que o conjunto de dados que treinou o modelo não carrega estereótipos de gênero, raça ou classe que, em publicidade, se transformam em reforço de desigualdades? Antonio Carlos Morato, em depoimento na USP, já havia sinalizado esse ponto: publicidade é atividade regida por responsabilidade social; a entrada da IA não suspende essa responsabilidade (MORATO, 2023).

Do ponto de vista formativo, isso nos leva a um diagnóstico incômodo: cursos de Publicidade e Propaganda que ficam apenas em criação, redação e mídia sem IA vão formar profissionais ultrapassados. Mas cursos que entregam só ferramenta, sem sociologia da comunicação, sem ética da imagem, sem direito digital e sem inteligência de dados, vão formar operadores acríticos, gente que aperta botão, mas não decide se deve apertar. A melhor resposta está no meio: faculdades presenciais, com projeto pedagógico atualizado, conseguem articular laboratório, cliente real, uso de IA generativa e debate ético em sala, algo muito mais difícil de sustentar em formações rápidas e exclusivamente remotas.

Para o mercado, o recado é direto: IA não é atalho para demitir criativo, é alavanca para reposicionar o criativo como curador. Em vez de partir de uma página em branco, o redator, o diretor de arte e o planner passam a partir de 20 variações geradas por IA e escolhem, combinam, rescrevem, adaptam ao tom da marca, filtram o que é enviesado e o que é juridicamente inseguro. Isso aumenta o valor do profissional humano, não o reduz. O que reduz o valor é usar IA como se fosse estagiário infinito e gratuito.

Há ainda uma dimensão de imagem do setor. Se a publicidade brasileira quer continuar na lista das mais premiadas e influentes, não pode aceitar que modelos de IA gerem campanhas visualmente iguais às de outros países, com banco de estilos repetido e prompts genéricos. IA sem direção artística vira produção pasteurizada. IA com direção artística vira aceleração do estilo brasileiro, da narrativa local, do humor nosso, do repertório regional. É aqui que a universidade pública e privada podem fazer diferença: treinando gente que entende tanto de Lévi-Strauss quanto de ChatGPT, tanto de Conar quanto de Midjourney, tanto de recepção de público quanto de clusterização de dados.

Portanto, a IA já venceu tecnicamente, ela funciona, entrega, vende. O que ainda não venceu é a governança da IA na publicidade brasileira. E governança, nesse caso, passa por três verbos: explicitar (dizer quando o conteúdo foi gerado por IA), auditar (conferir se há vieses, ilegalidades e violações de imagem) e educar (formar profissionais capazes de discutir o que fazem). Se fizermos isso, teremos uma publicidade mais inteligente não porque usa IA, mas porque sabe por que está usando.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

O país que cobra produtividade, mas ainda não aprendeu a cuidar

 


A ampliação da licença-paternidade para até 20 dias, aprovada na Câmara pelo PL 3.935/2008, coloca o Brasil diante de uma discussão que há décadas foi empurrada para depois: como queremos que o trabalhador concilie vida familiar, saúde mental e desempenho profissional? A resposta, até agora, tem sido contraditória. Exigimos produtividade de padrão internacional, mas mantemos políticas de cuidado que pertencem a um Brasil pré-digital, pré-flexível e pré-humano.

Os números mostram o tamanho do problema. A Associação Nacional de Medicina do Trabalho reconhece que cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros apresentam sintomas de burnout. Os afastamentos por transtornos mentais, ansiedade, depressão e estresse crônico, cresceram 134% entre 2022 e 2024, segundo levantamento da ONU Brasil. Estamos falando de quase meio milhão de pessoas afastadas só em 2024. Não é uma crise silenciosa: é uma epidemia de exaustão profissional.

Ainda assim, o país insiste em manter um modelo de parentalidade que ignora completamente a vida real das famílias. Cinco dias de licença para um pai significa, na prática, delegar a quase totalidade do cuidado a uma única pessoa, geralmente a mãe. Isso não é só injusto, é improdutivo. Diversos estudos internacionais mostram que, quando homens assumem uma parte mais ativa nos primeiros dias e semanas após o nascimento, há impactos positivos na saúde emocional da família, no desenvolvimento infantil e até na permanência das mulheres no mercado de trabalho.

É justamente essa redistribuição do cuidado que reforça a lógica econômica por trás da licença ampliada. Em países que adotaram políticas mais longas e flexíveis, as taxas de retorno ao trabalho após a parentalidade aumentaram, a rotatividade diminuiu e a produtividade cresceu de maneira mais estável. Não se trata de romantismo: trata-se de racionalidade. Investir em tempo de cuidado é mais barato do que lidar com a explosão de adoecimento mental no mercado brasileiro.

O estudo “People at Work 2023”, do ADP Research Institute, revela que 67% dos brasileiros afirmam sofrer impactos negativos do estresse nas suas rotinas de trabalho. Em setores de alta exigência, isso se traduz em atrasos, falhas, conflitos, baixa criatividade e, claro, perda de talentos. O país já paga caro por negligenciar o equilíbrio entre vida e trabalho, e continuar adiando a discussão sobre licença-paternidade só prolonga esse prejuízo.

A ampliação do benefício também enfrenta resistência baseada no argumento de que micro e pequenas empresas sofreriam com ausências prolongadas. Mas essa narrativa desconsidera que o impacto financeiro de curto prazo é menor do que o custo da rotatividade e do adoecimento. Empresas bem estruturadas conseguem planejar escalas, reorganizar funções temporariamente e ajustar rotinas, e mesmo as pequenas podem se beneficiar, no futuro, de políticas públicas que compensem parte desse período. A questão é menos sobre viabilidade e mais sobre prioridade.

É evidente que a licença de 20 dias ainda está longe do ideal observado em países que investem seriamente em políticas de cuidado. Mas é um início necessário. Um país que cresce não é o que exige mais horas, e sim o que organiza melhor essas horas. É o que entende que tempo não é gasto: é investimento.

O Brasil precisa decidir se quer continuar apostando em um modelo de trabalho sustentado pelo cansaço, pela culpa e pela precarização emocional, ou se está pronto para adotar práticas que realmente melhoram produtividade, inovação e bem-estar. Ampliar a licença-paternidade é um passo essencial nessa direção.

Porque nenhum país se torna competitivo quando metade da sua força de trabalho está exausta, e a outra metade permanece longe demais do início da vida dos próprios filhos.


sábado, 21 de junho de 2025

Renascimento da luz no inverno da alma

Quando o inverno chega e o frio se espalha, o mundo parece desacelerar. As noites ficam mais longas, os dias mais curtos, e a gente sente aquela vontade de se encolher debaixo das cobertas, com uma bebida quente na mão. Mas, no meio desse frio todo, existe uma celebração cheia de significado: o Yule, o Solstício de Inverno, comemorado em 21 de junho aqui no Hemisfério Sul. Para alguns, é só o dia mais curto do ano. Para outros, é o momento em que a esperança acende uma faísca e lembra que a luz sempre volta.

Yule é como aquele ponto de virada na história da nossa vida. Aquele momento em que, mesmo com tudo escuro, a gente sabe que algo bom está por vir. A luz não desapareceu, ela só deu uma pausa, esperando a hora certa para brilhar de novo. Em um mundo que exige produtividade o tempo todo, parar para celebrar o Yule é quase um ato de rebeldia. É dizer: "Tudo bem dar um tempo."

Essa tradição tem raízes antigas, lá nos tempos dos celtas e nórdicos, que comemoravam o retorno do sol com festas que duravam dias. Muita coisa que hoje a gente associa ao Natal, como a árvore decorada, as velas e a troca de presentes, veio dessas celebrações pagãs. Mas o Yule vai além dos enfeites e presentes; é um convite para uma renovação interna.

Quando a noite é mais longa e o frio aperta, é como se o universo dissesse: "Ei, que tal olhar pra dentro?" Quais áreas da sua vida precisam de luz? Que parte de você está pedindo um recomeço? Yule nos lembra que a escuridão não é o vilão da história; é o lugar onde as sementes da mudança começam a germinar.

Aqui no Brasil, o inverno pode não ser tão rigoroso quanto em outros lugares do mundo, mas a sensação de recolhimento é a mesma. Não temos neve cobrindo as ruas nem lareiras em todas as casas, mas temos aquele friozinho que convida a uma pausa. Yule é o momento de abraçar a calma, de encontrar aconchego nas pequenas coisas: uma xícara de chá quente, um bom livro, uma conversa gostosa com quem a gente ama.

Mais do que uma festa, Yule é uma lição de esperança. No auge da escuridão, o sol começa a voltar, devagarzinho. E isso, por si só, é um lembrete poderoso: mesmo quando tudo parece difícil, sempre existe a promessa de um novo dia. Em tempos de incertezas, quando o mundo parece cheio de sombras, Yule nos ensina que a luz é teimosa. Ela sempre encontra um jeito de voltar.

Os rituais de Yule não precisam ser complicados. Acender uma vela para simbolizar o retorno da luz, escrever seus desejos para o novo ciclo, cozinhar algo com ingredientes da estação ou simplesmente reunir a família para compartilhar histórias e esperanças. O que importa é reconhecer a beleza do momento: renascer junto com o sol.

No meio da correria do dia a dia, somos ensinados a evitar o silêncio e a temer a escuridão. Mas Yule vem para nos lembrar que é justamente nesses momentos de pausa que a gente cresce. O inverno não é um obstáculo; é uma parte necessária do ciclo da vida. Assim como a natureza precisa se recolher para florescer de novo, nós também precisamos desses momentos para nos reconectar com o que realmente importa.

Então, quando o dia 21 de junho chegar, não veja apenas o frio lá fora. Veja o calor da esperança que começa a brotar dentro de você. Yule não é apenas sobre o retorno da luz no céu, mas sobre o renascimento da luz na nossa própria alma.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

IA, ética e publicidade

A inteligência artificial já está transformando profundamente a publicidade — desde a criação de roteiros até a análise de dados, passando por imagens, vídeos, narração e interação com o consumidor. Mas, junto com as oportunidades, surgem dilemas éticos urgentes, que desafiam o mercado a pensar além da performance. Afinal, o que acontece quando a tecnologia avança mais rápido que o bom senso?

Deepfakes, manipulação de dados, falta de transparência na criação de conteúdos automatizados e dúvidas sobre autoria criativa não são mais temas de ficção científica. Estão no centro das decisões de campanhas que vão ao ar todos os dias. O uso de IA na publicidade levanta questões que tocam diretamente a confiança do público, a credibilidade das marcas e a responsabilidade social das agências.

Os deepfakes, por exemplo, permitem criar vídeos hiper-realistas com rostos e vozes de pessoas que não participaram da produção. Se, por um lado, isso abre espaço para campanhas inovadoras, por outro, pode resultar em enganos, distorção de realidade e danos à imagem de terceiros. Quando essa tecnologia é usada sem aviso claro ao público, o impacto vai além da estética: fere a ética.

Outro ponto crítico é a autoria dos conteúdos gerados por IA. Quem assina um texto criado por ChatGPT? Quem detém os direitos de uma imagem gerada por DALL·E? Quem responde por uma campanha feita sem envolvimento direto de profissionais humanos? O mercado publicitário ainda está aprendendo a lidar com essa zona cinzenta entre autoria técnica e autoria criativa.

Há também o tema da privacidade e manipulação de dados. Algoritmos que personalizam anúncios em tempo real precisam de acesso a grandes volumes de dados pessoais. Mas até que ponto os consumidores sabem (e consentem) com esse uso? Quando a publicidade ultrapassa a linha do persuasivo e entra no território do invasivo, o marketing deixa de informar para manipular.

O CONAR, Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, já vem debatendo esses pontos e reforçando a importância de campanhas que respeitem transparência, veracidade, inclusão e consentimento. Mas é preciso mais. É hora de criar códigos claros de conduta para o uso de IA em publicidade, envolvendo agências, anunciantes, desenvolvedores de tecnologia e sociedade civil.

Não se trata de frear a inovação, mas de guiar seu uso com responsabilidade. A publicidade sempre foi uma forma de linguagem social — e, como tal, precisa ser regida por valores éticos. Usar a IA sem critérios claros é como entregar um megafone para uma criança: o volume é impressionante, mas o conteúdo pode ser perigoso.

Em época de algoritmos onipresentes, é essencial lembrar que ética não se automatiza. É uma decisão consciente, coletiva e contínua. A IA pode ajudar a criar, mas só os humanos podem decidir como, quando e por que usar cada ferramenta. Esse discernimento é o que vai separar marcas inovadoras de marcas irresponsáveis — e definir o futuro da publicidade.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Fé, política e silêncios ensaiados no coração da Igreja

 

Poucos filmes contemporâneos têm coragem de adentrar os muros do Vaticano com a delicadeza de quem entende seu peso simbólico e institucional. Conclave (2024), dirigido por Edward Berger e protagonizado por um sutil e magnético Ralph Fiennes, não apenas o faz — como transforma o silêncio ritualístico da Igreja em terreno fértil para o suspense político. Mas, como toda boa narrativa de poder, o filme revela tanto quanto esconde. E é aí que mora sua força — e sua limitação.

Baseado no romance de Robert Harris, Conclave acompanha o cardeal Lawrence enquanto este supervisiona o processo de escolha do novo papa após a morte do pontífice. À primeira vista, trata-se de um thriller eclesiástico, quase um House of Cards entre colunas de mármore. Mas o que o filme realmente revela é o choque entre tradição e verdade, entre o peso da fé e os jogos de influência de uma instituição que, apesar de espiritual, é também profundamente política.

O mérito de Berger está em transformar um processo fechado e cerimonial — o conclave — em um espaço narrativo tenso, onde olhares valem mais que palavras e a liturgia esconde disputas internas. A cinematografia austera de Stéphane Fontaine contribui para esse clima claustrofóbico, e a trilha sonora de Volker Bertelmann acentua a sensação de urgência silenciosa que atravessa o filme.

Mas é Ralph Fiennes quem carrega o coração do enredo. Seu cardeal Lawrence é, ao mesmo tempo, servo fiel e sujeito em crise. E sua performance contida, quase litúrgica, expressa a complexidade de quem está diante de um sistema maior do que qualquer convicção pessoal. O elenco de apoio, com nomes como Stanley Tucci e Isabella Rossellini, reforça a densidade dramática, dando voz a diferentes facetas da hierarquia católica.

No entanto, Conclave também simplifica. Ao dramatizar alguns conflitos e moralizar escolhas com certo maniqueísmo, o filme perde a chance de mergulhar nas camadas mais espessas da Igreja — aquelas onde fé, cultura, política e poder se entrelaçam de forma inseparável. É um risco calculado, talvez necessário para manter o ritmo cinematográfico, mas que enfraquece parte da crítica possível.

Ainda assim, o filme acerta ao levantar uma pergunta que ecoa muito além das paredes do Vaticano: quem tem o direito de decidir o futuro espiritual de bilhões de pessoas? E com base em que critérios? O conclave, afinal, é também um espelho do nosso tempo: um ritual antigo tentando permanecer relevante em uma era de rupturas e incertezas.

Conclave é um filme necessário. Porque nos lembra que instituições, por mais sagradas que sejam, são feitas de pessoas — e pessoas, com todas as suas falhas e esperanças, também têm fé. Não é um filme sobre a Igreja. É um filme sobre o poder. E o silêncio.

terça-feira, 13 de maio de 2025

Quando a repetição ofusca a maré da originalidade

O oceano já não chama com a mesma força. Oito anos depois do impacto cultural e emocional de Moana (2016), a Disney retorna com uma continuação que, embora visualmente esplêndida, parece presa ao formato que tanto busca renovar. Moana 2 é uma experiência agridoce: entrega técnica impecável, mas escorrega justamente no que fez do primeiro filme um marco — a autenticidade da jornada, a potência simbólica da protagonista e a originalidade narrativa.

Desta vez, Moana, agora mais velha e experiente, parte em uma nova missão para restaurar a ilha perdida de Motufetu. A premissa, à primeira vista, parece promissora. No entanto, a execução revela uma história que se aproxima mais da estrutura episódica de uma série do que de um longa-metragem coeso. Há momentos tocantes, sim, mas também muitos atalhos, diálogos apressados e desenvolvimentos pouco explorados. A aventura segue, mas sem o mesmo brilho da descoberta — parece que, desta vez, o oceano já conhece demais os caminhos.

Um dos maiores pontos de comparação inevitável está na trilha sonora. Em 2016, as músicas de Lin-Manuel Miranda foram responsáveis por transformar emoções em hinos geracionais. Quem não se arrepiou com “How Far I’ll Go”? Em Moana 2, as canções compostas por Abigail Barlow e Emily Bear são funcionais, mas não memoráveis. “Get Lost” é um destaque isolado em meio a uma trilha que não consegue, desta vez, contar a história por si só — uma falha significativa em um musical de animação.

Ainda assim, é preciso reconhecer os méritos da sequência. A animação atinge um novo nível de detalhamento, com paisagens que exaltam a cultura polinésia e cenas de tirar o fôlego. A representatividade continua sendo um trunfo importante, mantendo viva a valorização de um imaginário que por muito tempo foi apagado ou estereotipado no cinema mainstream. Nesse sentido, Moana 2 cumpre uma função simbólica poderosa: a de afirmar culturas ancestrais como protagonistas da própria narrativa.

Mas a pergunta que ecoa é: precisava de uma continuação? Ou melhor, essa continuação precisava ser feita assim? Ao seguir a lógica da franquia segura, a Disney parece ter escolhido o caminho menos arriscado — e, portanto, menos inventivo. Moana merecia uma nova jornada que ampliasse seu universo não só em geografia, mas em profundidade.

Moana 2 não é um fracasso, longe disso. É um filme bonito, bem-intencionado e tecnicamente admirável. Mas falta-lhe alma de travessia. Falta a surpresa da primeira vez. Falta a coragem de navegar onde a maré não leva por si só. Talvez seja hora de lembrar o que o oceano nos ensinou: que é preciso ousar sair do porto, mesmo que o horizonte pareça distante.

domingo, 11 de maio de 2025

Mãe é força ancestral

 

Nem toda mãe é de sangue — mas toda mãe é portal. Na Wicca, caminho espiritual que honra a natureza e seus ciclos, a figura materna não é apenas biológica: ela é simbólica, arquetípica, energética. Ela representa a vida em sua plenitude, a nutrição, a proteção e o poder de criar, sustentar e transformar. Em um mundo que tantas vezes reduz a maternidade ao papel doméstico e ao laço genético, a bruxaria amplia: toda mulher que acolhe, protege, ensina e transforma carrega em si a centelha da Deusa Mãe.

Na Tradição Wiccana, a Deusa é tríplice: Donzela, Mãe e Anciã — representando as fases da lua e os ciclos da vida. A Mãe, associada à Lua Cheia, é o aspecto da fertilidade, do crescimento e do amor incondicional. Ela é a Terra em seu ápice de abundância, a força que gera e nutre. Mas essa maternidade não está presa ao útero: ela vive no coração, na intuição, nos gestos de cuidado e nas palavras que curam.

Muitas pessoas que seguem o caminho da bruxaria — especialmente mulheres — encontram figuras maternas fora da linhagem sanguínea. São mães de alma, mães de escolha, mães de caminhada. São bruxas mais velhas que iniciam, que amparam, que guiam com paciência. São amigas que se tornam fonte, irmãs que viram chão, parceiras que iluminam. A maternidade, na Wicca, é sobre energia. Sobre presença. Sobre vínculo.

A Deusa Mãe ensina que o maternar é um estado de consciência, e não uma função social. Ela se manifesta nas mulheres que se recusam a repetir padrões de dor, nas que criam comunidades, nas que curam com as mãos e com a palavra, nas que semeiam liberdade nos caminhos de outras. Ela se revela na mulher que acolhe a própria criança interior, que honra seus ciclos, que protege sem oprimir e ama sem possuir.

Em rituais da Roda do Ano — como Beltane, Lammas e Ostara — celebramos a fertilidade da terra, mas também a fertilidade de ideias, projetos e afetos. A mãe é aquela que dá forma ao invisível. Que transforma energia em realidade. Que faz da escuta um altar e da palavra, um feitiço. No altar da bruxa, a imagem da Deusa Mãe nos lembra que criar é um ato mágico, e que toda maternidade, seja ela literal ou simbólica, é sagrada.

Falar de mãe, portanto, não é falar apenas da mulher que nos pariu, mas da que nos acolheu, nos ensinou a olhar para a lua e a confiar no tempo. É lembrar que há muitas formas de gestar e parir — uma ideia, um vínculo, uma cura, um caminho. Na Wicca, aprendemos que toda forma de cuidado é também uma forma de magia. E toda mulher que cuida — de si, dos outros, do mundo — carrega em si a Deusa.

Nem toda mãe tem filhos, mas toda mãe tem um poder: o de gerar transformação. E essa é, talvez, a essência mais profunda da bruxaria.

sábado, 10 de maio de 2025

A construção da emoção

 

O Dia das Mães é, para o mercado publicitário, uma vitrine de sentimentos. Mas transformar emoção em estratégia exige muito mais do que frases bonitas ou imagens tocantes: requer domínio técnico da narrativa. O desafio é construir histórias que não apenas falem da maternidade, mas que ressoem com as múltiplas realidades e afetos que ela representa — e isso se faz com método, sensibilidade e repertório.

Narrativas eficazes são construídas com base em estruturas que organizam tempo, personagem, conflito e resolução. Como destaca Roland Barthes, toda narrativa parte de uma lógica de significação: um discurso que carrega sentido porque responde a um desejo ou expectativa social. No caso das campanhas do Dia das Mães, esse desejo costuma se materializar em vínculos, reconhecimento, gratidão ou afeto. Mas, para que funcione, a emoção precisa ser verdadeira e culturalmente situada.

Uma boa campanha começa com a escuta do real: que tipo de mãe se deseja representar? Existe um perfil dominante? Há espaço para pluralidade? Trabalhos como o de Christian Salmon, em Storytelling: a máquina de fabricar histórias e formatar mentes, mostram como a narrativa publicitária pode tanto ampliar imaginários quanto reproduzir estereótipos. Em datas como o Dia das Mães, esse risco é ainda maior — afinal, nem toda mãe é sorridente, branca, heteronormativa e de classe média.

É nesse ponto que entra a curadoria do conflito emocional. Não há história sem tensão — e, no caso da maternidade, os conflitos são ricos, variados e muitas vezes silenciados. Quando marcas como O Boticário apostam em campanhas como #ATormentaPassa, o que está sendo feito é a inserção do público em um espaço de empatia. Mostrar a dor, a dúvida, o cansaço, o estranhamento — e não apenas o abraço e o presente — torna a narrativa mais densa e verdadeira.

Outra técnica importante é o uso do arco do herói emocional, adaptado à vida comum. A mãe, nesse caso, não é um arquétipo idealizado, mas uma figura com jornada, desafios e conquistas. Mostrar a mãe que trabalha, que chora escondido, que erra, que aprende com o filho, que encontra força onde não sabia ter — tudo isso gera identificação e abertura emocional. O storytelling de marca precisa encontrar essas camadas.

Há também o papel essencial da linguagem visual e sonora na construção da emoção. Planos fechados, luz suave, silêncios bem posicionados, trilha emocional, texto que evoca memórias... Tudo isso contribui para o impacto sensível da campanha. A estética deve dialogar com a estrutura narrativa, não ser apenas uma moldura bonita. Como ensina a semiótica publicitária, forma e conteúdo precisam significar juntos.

Por fim, há o aspecto ético: emocionar não é manipular. O consumidor contemporâneo reconhece a diferença entre a emoção autêntica e a emoção forçada. Uma campanha só emociona de verdade quando parte de um lugar honesto — quando a marca escolhe não falar “sobre” o consumidor, mas “com” ele. Ao abrir espaço para histórias reais, diversidade e escuta afetiva, a publicidade deixa de ser vitrine e passa a ser espelho.

No Dia das Mães — uma data repleta de simbolismos e disputas afetivas —, criar campanhas que emocionem não é um capricho criativo. É uma escolha estratégica, técnica e ética. Porque, quando a narrativa é bem construída, ela toca. E quando toca, permanece.


quarta-feira, 7 de maio de 2025

Narrativas que tocam o coração

 

O Dia das Mães é uma das datas mais significativas para o comércio brasileiro, movimentando bilhões de reais anualmente. Em 2024, por exemplo, cerca de 128 milhões de consumidores compraram presentes, com um gasto médio de R$ 258 por pessoa, segundo a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). A movimentação total do varejo ultrapassou os R$ 40 bilhões — um impacto que reforça a importância estratégica da data para marcas de todos os portes.

Mas diante de um mercado saturado de ofertas, as campanhas que realmente se destacam são aquelas que conseguem estabelecer uma conexão emocional genuína com o público. Mais do que vender produtos, elas contam histórias que ressoam com experiências reais, afetos, dilemas e memórias familiares. E é justamente essa abordagem que vem se fortalecendo nas campanhas de 2024.

O Boticário, por exemplo, apostou na campanha #ATormentaPassa, um curta-metragem que aborda os desafios emocionais vividos por mães de adolescentes. A proposta foge do clichê da maternidade idealizada e entra em um terreno mais profundo, sensível e verdadeiro. Essa humanização da narrativa permite que o público se identifique com a marca, criando um vínculo afetivo que vai além da relação comercial.

A ONG Gerando Falcões também lançou uma campanha que compartilha histórias reais de mães da periferia, destacando suas lutas diárias e conquistas. Com isso, a publicidade ganha potência social e contribui para representar a pluralidade das maternidades existentes no Brasil. Esse tipo de iniciativa responde a uma expectativa real: segundo pesquisa da Globo em parceria com o Instituto Locomotiva, 68% dos consumidores esperam que marcas representem diferentes perfis de famílias e maternidades em suas comunicações.

Além disso, campanhas com apelo emocional têm desempenho significativamente superior: dados da Think with Google mostram que narrativas que exploram emoções têm 76% mais chances de gerar engajamento e memorização de marca. Isso reforça que emoção não é apenas estética — é estratégia.

Outra prática que vem crescendo é o uso de conteúdo gerado por usuários (UGC) e a valorização de influenciadoras maternas reais. Ao incentivar mães a compartilharem suas próprias histórias e celebrações, as marcas se tornam mais acessíveis, gerando identificação, amplificação orgânica e reputação positiva. Esse tipo de campanha se espalha não só pela força da mensagem, mas pela autenticidade de quem a vive.

Num cenário onde o público é cada vez mais exigente, consciente e emocionalmente atento, a publicidade precisa ir além do roteiro ensaiado. O desafio é contar histórias que toquem o coração, mas também reconheçam o mundo real das mães brasileiras, com suas múltiplas faces, jornadas e contextos. Porque vender pode até ser o objetivo comercial — mas tocar é o verdadeiro diferencial da marca.

O Dia das Mães, portanto, não deve ser apenas uma oportunidade de impulsionar vendas, mas de fortalecer vínculos com narrativas que inspirem, acolham e representem. Campanhas assim não só vendem: elas permanecem.

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Opinião não é fato


Vivemos em uma era em que a frase “eu tenho direito à minha opinião” se tornou escudo para todo tipo de afirmação — das mais legítimas às mais perigosas. Mas é preciso lembrar: sim, todos têm direito à sua opinião. Mas nenhuma opinião tem o direito de ser tratada como fato sem ser verificada. E essa confusão não é apenas um erro conceitual — é um risco à convivência democrática, ao jornalismo, à ciência e ao próprio pensamento crítico.

Opinião é uma interpretação, uma leitura subjetiva da realidade. Ela pode ser baseada em valores, crenças, preferências, experiências. Já o fato é algo que, por definição, aconteceu ou acontece, e que pode ser comprovado por evidência confiável. O problema começa quando essa fronteira é ignorada — seja nas redes sociais, nas conversas de bar ou nos discursos de figuras públicas.

Dizer, por exemplo, que “vacinas causam doenças” não é uma opinião — é uma afirmação factual falsa, já desmentida pela ciência. Achar que “as vacinas foram criadas muito rápido” pode até ser uma dúvida legítima, mas transformá-la em certeza sem base é desinformação. O mesmo vale para o clima, a política, a história e tantas outras áreas em que opiniões sem respaldo ganham status de “verdade alternativa”.

Essa confusão também se vê em ambientes acadêmicos e jornalísticos. Uma reportagem de qualidade não é espaço para achismos — exige fontes, checagem, contextualização. Já um artigo de opinião, como este, deve deixar claro desde o início que se trata de um ponto de vista, ainda que embasado em dados. Ética e responsabilidade passam por reconhecer a natureza do que se diz.

A internet potencializou esse dilema: todos podem se expressar, mas nem todos compreendem que informar é diferente de opinar. E o pior: algoritmos premiam engajamento, não precisão. Quanto mais polêmica, mais alcance. E quanto mais alcance, mais difícil distinguir o que é verdade do que é apenas “o que eu acho”.

Isso não significa que opiniões devam ser silenciadas — pelo contrário. Opinar é essencial para o debate democrático. Mas é justamente por isso que precisamos educar para a diferença entre opinar e informar. Precisamos de cidadãos que saibam argumentar com base, duvidar com método e reconhecer quando é hora de ouvir os dados — e não apenas os sentimentos.

A escola, o jornalismo e a própria cultura digital precisam promover esse discernimento. Porque a liberdade de expressão só é plena quando acompanhada da responsabilidade de não distorcer os fatos para acomodar convicções. O mundo já tem opiniões demais. O que falta, muitas vezes, é humildade para mudar de opinião diante dos fatos.

E isso, sim, é sinal de maturidade.

domingo, 4 de maio de 2025

Uma voz de carne e osso no altar da humanidade

 

A morte de Papa Francisco marca o fim de um papado que não se conteve nos muros do Vaticano. Sua liderança, mais do que institucional, foi humana — e por isso, profundamente transformadora. Se, por séculos, a figura papal foi símbolo de autoridade dogmática e hierárquica, Jorge Mario Bergoglio deslocou o centro de gravidade da fé católica para o campo do cotidiano, da escuta e da misericórdia. E esse deslocamento incomodou, mas também curou.

Francisco não foi o primeiro papa a falar de justiça social, mas foi o primeiro em muito tempo a falar como alguém que a sentiu na pele. Seu discurso não vinha do púlpito — vinha da rua. Suas palavras, mesmo quando escritas em linguagem oficial, chegavam ao mundo com a simplicidade de um vizinho que aconselha, de um avô que acolhe, de um amigo que não julga antes de entender. Seu famoso “Quem sou eu para julgar?”, ao se referir a pessoas LGBTQIA+, não foi apenas uma frase — foi um marco linguístico, político e espiritual na história recente da Igreja.

Diferentemente de João Paulo II, cuja eloquência midiática sustentou um papado profundamente conservador, e de Bento XVI, cujo academicismo isolou sua voz em um tempo que clamava por acessibilidade, Francisco trouxe a dúvida para o centro da santidade. E isso o aproximou de muitos — e o afastou de outros. Sua fé não era a da infalibilidade: era a da escuta, da tentativa, da contradição humana. Por isso, tantos discursos seus reverberaram fora do universo religioso, tocando pessoas que não se consideram católicas, mas que encontraram ali algo raro: compaixão estruturada como prática política.

Seus posicionamentos sobre o meio ambiente, os migrantes, os pobres e a economia predatória colocaram a Igreja em rota de colisão com os interesses mais poderosos do mundo. Ele não apenas apontava erros estruturais — ele nomeava a omissão como pecado coletivo. E ao fazer isso, humanizou não só os “maus comportamentos”, que deixou de demonizar, mas também os “bons”, que deixou de romantizar. Amar o próximo, para Francisco, nunca foi um mandamento abstrato — foi ação. E isso fez da ética cristã algo radicalmente atual.

A crítica a sua postura existe — e deve existir. Houve omissões, recuos, silêncios. Sua tentativa de reformar a Cúria encontrou resistência feroz. E muitos temas — como a ordenação de mulheres, o aborto e o celibato — permaneceram intocados ou apenas sugeridos em sutilezas. Mas ainda assim, seu maior feito talvez tenha sido lembrar que o papa é um ser humano, e não um dogma vestido de branco.

Ao contrário de papados que pareciam inatingíveis, Francisco era visivelmente tocado pelas dores do mundo. Chorava. Tremia. Cambaleava. E nesse gesto, o gesto de alguém que não tem todas as respostas, ele nos ensinou que a fé não é sobre perfeição — é sobre presença. Sobre estar ali, junto. Mesmo quando o outro não pensa, ama ou crê como você.

Papa Francisco nos mostrou que é possível ser líder sem ser autoritário, ser espiritual sem ser alienado, ser firme sem ser rígido. Seu legado, mais do que doutrinal, é existencial. E por isso, continuará ecoando muito além da cátedra de Pedro. Onde houver alguém escolhendo o amor antes do julgamento, a escuta antes do grito, o gesto antes do dogma — ali, sua voz ainda viverá.